Dá para ver o cansaço nos olhos
Inicialmente, Buenos Aires era o local em que passaríamos a maior quantidade de horas naquela viagem. Na prática, foi o lugar em que tivemos o menos horas úteis. Deveriamos chegar às 15h do dia 15/5, dormir três noites e votar para o Brasil em um voo no quarto dia, no fim da tarde. Tempo suficiente para conhecer boa parte da capital portenha. Mas não foi isso que aconteceu.
Como comentamos no último post, funcionários da LAN Argentina entraram em greve no dia em que saímos de Bariloche. O nosso voo, que seria direto Bariloche-Buenos Aires, saindo de Bariloche no início da tarde, foi alterado para um voo da LAN Chile com uma improvável conexão em Santiago. Para completar, ao chegarmos correndo no portão de embarque da conexão, fomos informados que ele havia sido trocado e agora era do outro lado do aeroporto. Sendo que no aeroporto de Santiago isso significa uma boa caminhada de quinze minutos. O resultado de toda essa confusão foi que chegamos em Buenos Aires por volta de 1h da manhã do dia seguinte. Aquela tarde livre no primeiro dia tinha ido para o espaço.
O Aeroporto Internacional de Ezeiza fica bem distante do centro, onde ficamos hospedados. No caminho, a guia turística que nos acompanharia nos dias seguintes informou-nos que o nosso city tour estava marcado para as 9h. Indo dormir depois das 2h, com o dia cheio que tivemos na véspera, era inviável. Pedimos e ela passou para a tarde.
Ela também nos deu várias dicas de segurança para a cidade, como evitar usar notas de alto valor, pois são comuns os golpes na hora de dar o troco. Um taxista pode dizer que está sem troco e devolver o dinheiro em notas falsas, por exemplo. Outra dica foi a de evitar pegar taxi na rua que não seja rádiotaxi.
Quando chegamos no nosso quarto no Sheraton Buenos Aires (San Martin, 1225/1275), ligamos a TV e vimos um noticiário com cenas de um incêndio. Paramos para ver o que era. Naquela tarde, passageiros do metrô, revoltados com o atraso, colocaram fogo na estação Constitución. Por isso, a partir do dia seguinte, os metroviários entrariam em greve. Isso nos causaria alguns transtornos ao longo da viagem.
Saguão do Sheraton
Nosso primeiro almoço em Buenos Aires foi uma recomendação de amigos. Fomos almoçar no Cabaña Las Lilas (Alicia Moreau de Justo, 516, Puerto Madero). Por ficar relativamente próximo ao hotel e termos pouco tempo até a chegada da van que faria o city tour, acreditávamos que seria uma boa opção. De fato foi uma excelente indicação. O Cabaña Las Lilas é um restaurante de nível elevado (e preço também). O atendimento é de primeiríssima qualidade. Tão bom que foi o único restaurante que nos disse que um prato serviria duas pessoas se não quisessem se fartar. A carne era excepcionalmente bem feita. A única dica que eu dou a quem quiser apreciar o restaurante é que vá com tempo. Não que o serviço seja demorado, mas não se vai em um restaurante como aquele com pressa (o que infelizmente foi nosso caso). Saímos correndo, e tive a infeliz idéia de voltar a pé para o hotel, imaginando que chegaríamos mais rápido. Acontece que o hotel não era tão próximo quanto imaginávamos. Mesmo assim chegamos a tempo.
Durante o city tour, tivemos uma amostra do comportamento portenho. Antes que pudéssemos fazer a primeira parada, passamos por uns cinco protestos diferentes. Fato que, aliado ao congestionamento causado pela greve do metrô, nos fez percorrer alguns desvios.
Passamos por alguns bairros tradicionais e outros mais modernos da cidade. A primeira parada foi na Praça de Mayo, onde ficam, entre outros, a Casa Rosada (sede do Executivo Argentino) e a Catedral. Na verdade, só pudemos entrar na Catedral, pois a Praça propriamente dita estava cercada. Adivinha porque? Havia mais um protesto marcado para aquela tarde.
Mausoleu do General San Martin, no interior da Catedral
Casa Rosada vista da Catedral
Da Praça de Mayo seguimos para o famoso bairro La Boca. Famoso pelo clube de futebol Boca Juniors e pelo Caminito (rua de artistas), La Boca é um bairro de periferia que cresceu em torno do antigo porto de Buenos Aires. Como a visita era rápida, como em todo city tour, não conhecemos a sede do Boca Juniors, clube que projetou Maradona. A Bombonera (estádio do Boca) só pudemos ver de longe.
Os fundos das arquibancadas de La Bombonera
Nossa parada em La Boca concentrou-se na região do Caminito. Cantada em tangos e famosa pelo colorido de suas casas, a rua ainda concentra artistas plásticos e dançarinos (acho que a maioria só faz a pose para ganhar dinheiro). As ruas próximas também concentram ateliês e bares (meio caros).O colorido das casas não é apenas uma graça, tem uma razão histórica. O bairro fica na foz do Riachuelo e abrigou um porto. A região sempre foi humilde e seus moradores aproveitavam restos de madeira, zinco e tinta que sobrava dos barcos alí ancorados para construir suas moradias. Daí o aspecto dessas casas. Hoje, restaurada, a região do Caminito é um cartão postal de Buenos Aires. Apesar de movimentado e cheio de turistas, o bairro é perigoso, por isso não é recomendável caminhar fora da região das casas coloridas.
Na manhã seguinte fomos conhecer a Recoleta. É estranho, mas o principal ponto turístico da região é o seu cemitério. É alí que está sepultado o corpo de Eva Peron, a Evita, esposa do ex-presidente argentino Carlos Peron. Mas nossa impressão é a de que o túmulo dela é um dos mais simples. Alguns mausoléus são verdadeiras obras de arte. A visita é interessante, mas o bairro tem mais pontos bacanas, como centros culturais, museus e a avenida Alvear (chamada exageradamente de Champs Elysée de Buenos Aires). Infelizmente esses pontos ficaram para uma outra passagem por Buenos Aires.
Exemplo de um grande mausoléu no cemitério da Recoleta
Na saída da Recoleta um fato curioso. Queriamos almoçar novamente no Porto Madero. Então, fizemos sinal para um rádio-táxi na rua. Quando entramos e informamos que iríamos ao Porto Madero, ele nos disse: "podem descer que para lá eu não vou". Descemos sem entender o que estava acontecendo. O fato é que a greve no metrô tornara o trânsito um caos nas redondezas do centro. Resolvemos pedir um novo táxi, dessa vez por telefone. Levamos vinte minutos, sendo dez de congestionamento, para chegar a uns quinhentos metros do local que queríamos. De tão parado que o trânsito estava, o taxista nos sugeriu que seguíssemos a pé. Demos uma boa gorjeta e seguimos sua sugestão.
O Siga la Vaca (Alicia Moreau Justo, 1714, Puerto Madero) é uma parrilla (algo parecido com uma churrascaria). Haviam me dito que seria algo que mais se aproximaria de uma churrascaria brasileira em Buenos Aires. Na verdade encontrei um lugar mais parecido (mais barato) e melhor no nosso último dia. O fato é que tem cara de churrascaria, buffet de churrascaria, mas não é o espeto que vai até você. Para servir-se da carne, você pega uma fila e fala ao churrasqueiro o corte que você deseja. O problema é que não sabíamos de cor o nome dos cortes na Argentina. Como a fila estava grande, aceitei a sugestão que o churrasqueiro me deu quando percebeu que eu era brasileiro: picanha. OK, isso não é um corte que se coma na Argentina, mas estava tão perdido e havia tanta gente na fila que não quis demorar mais. Com a Mariana foi o mesmo.
Puente de la Mujer (Puerto Madero): dizem que é inspirada em um casal dançando
Tiramos a tarde para conhecer o centro a pé e comprar algumas lembrancinhas. A principal referência para quem quer fazer compras em Buenos Aires é a Florida, uma rua de pedestres que corta o microcentro da praça San Martin à praça de Mayo. Outra rua que também oferece grande variedade de opções é a Santa Fé, sendo que essa é muito extensa e vai se afastando do centro rumo oeste, também saindo da praça San Martin. Mas para quem quer economizar um pouco sem sair do centro, a dica é procurar as ruas paralelas à Florida. Como o movimento é menor, os preços são um pouco melhores. Apesar do câmbio a nosso favor (naquela época 66 centavos de Real compravam 1 Peso) não achamos vantagem no preço da maioria das mercadorias. A única coisa que era evidentemente mais barata era roupa masculina, principalmente camisas sociais e ternos.
À noite fomos a um espetáculo de Tango. Nossa guia nos perguntou se preferíamos algo mais tradicional ou algo no estilo Broadway. Ficamos com o tradicional e fomos levados ao Esquina Carlos Gardel (Carlos Gardel, 3200, Abasto). O valor é relativamente salgado, mas inclui, além do show, um bom jantar, bebidas e o transporte. Se o valor (na época, em torno de US$ 100) não for impeditivo, vale o programa.
Esquina Carlos Gardel: trecho de uma das apresentações
Nosso último dia era reservado a conhecer sozinhos mais algum lugar fora do centro. Mas fomos acordados às 8h30 pela nossa guia ao telefone. A greve da LAN Argentina continuava e ela queria que nós fóssemos ao escritório da companhia aérea para confirmar o voo. Eu sempre achei que um agente de viagens era que fizesse esse papel, como ocorreu em Bariloche, mas, como estava fora de meu País, preferi não discutir. Tivemos que ir a pé, pois o centro continuava instransitável para veículos com a greve do metrô. Para completar, a espera no escritório era interminável. Tudo para, ao fim, descobrir que nosso voo estava confirmado. Resultado: perdemos nossa manhã livre.
A única coisa possível a fazer àquela altura era sentar em uma das dezenas de lojas Havana (não precisa de endereço) e comprar um alfajor para trazer como lembrança para os amigos. Na época, só havia uma dessas lojas em São Paulo. Hoje São Paulo está repleta e filiais começam a ser abertas em outras cidades (olá! Precisamos de uma em Brasília).
Nosso almoço tinha que ser próximo ao hotel. Por isso nos deram a dica do Las Nazarenas (Reconquista, 1132). Esse, sim, lembrava a forma de fazer churrasco brasileiro, especialmente o do sul (mas com carne argentina, o que é ainda melhor). Além disso, o preço era convidativo e o atendimento excelente. De lá seguimos para o hotel para esperar nosso transporte, apesar de ser muito cedo, o congestionamento causado pela greve do metrô exigia que cortássemos mais essas horas preciosas de nosso tempo na Argentina. Fizemos bem, só chegamos a tempo porque o motorista da van faltou andar sobre o meio fio para costurar o congestionamento monstro no caminho do aeroporto.
Três anos depois, voltamos a Buenos Aires, revisitamos alguns lugares e conhecemos outros pelos quais ainda não haviamos passado. Mas isso é assunto para outro post.
Dicas para Buenos Aires (Argentina):
Hospedagem: As melhores e mais variadas opções de hospedagem estão no centro. A vantagem é poder sair a pé durante o dia. Há aqueles que gostam de ficar na Recoleta e em Palermo por ficar próximo das baladas.
Lugares que fomos e recomendamos: Um espetáculo de tango (geralmente inclui jantar), Caminito, caminhada na região da Recoleta.
Pretendemos voltar? Já voltamos.













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